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Agência Saúde dissemina má informaçāo

O Jornal Folha Vitória, afiliado ao grupo R7, reproduziu no último dia 11/12/2018 o medíocre, superficial e ridicularmente hostil discurso alardeado pela Agência Saúde (Assessoria de Imprensa do Ministério da Saúde). Sem pecar no esforço exagerado do convencimento, mas com o intuito de oferecer informações relevantes e combater a desinformaçāo, vamos reproduzir a matéria e comentá-la com auxílio de artigos de especialistas mundialmente reconhecidos – com ênfase em dados científicos e apoio do Dr. Roberto Sussman e da Pro-Vapeo México. Lembrando sempre que, se você ou alguém que você ama fuma, vale muito a pena se aprofundar um pouco no tema. Trocar o fumo pelo vapor pode salvar vidas.

 


O título do artigo apresenta aos leitores do jornal capixaba uma única informaçāo correta: a proibiçāo do comércio pela Anvisa. E de forma desonesta, afirma hiperbólica e categoricamente que o aparelho “causa dependência”. Vejamos, entāo, exatamente a definiçāo do que é o “cigarro eletrônico”: é simplesmente um dispositivo material com eletrônica simples e alimentado por bateria, que simula o ato de fumar cigarros ao permitir que se possa inalar o aerosol gerado pela vaporizacao de um solvente líquido, geralmente composto por propilenoglicol, glicerina vegetal e saborizantes sintéticos, podendo ou nāo incluir nicotina (o líquido é chamado popularmente de juice). Quase todos sabemos que o ingrediente com latente capacidade de causar dependência é a nicotina. Digo latente, pois, sobre a nicotina, vale lembrar que seu potencial adictivo depende muito da forma de consumo. Por exemplo, é altamente viciante se consumida através da combustāo do cigarro e praticamente nāo é viciante se consumida por meio de medicamentos como adesivos ou chicletes. Quase todos os estudos sobre o potencial adictivo da nicotina foram realizados em relaçāo ao seu consumo em cigarros convencionais e alguns poucos sobre a nicotina farmacêutica. Os escassos estudos com cigarros eletrônicos demonstram que o potencial de provocar dependência é comparável ao observado no uso medicamentoso, ou seja, nos adesivos e chicletes com nicotina. Veja um farto e detalhado material sobre a nicotina (em espanhol e inglês).

Seguindo o artigo, o subtítulo anfatiza sua desonestidade buscando aterrorizar o leitor, afirmando que “o aparelho (sic) aumenta o risco de infarto agudo do miocárdio e de doenças respiratórias e pulmonares, como a asma”. Nos mais de dez anos de uso desses aparelhos nāo existem evidências sugerindo que o uso do cigarro eletrônico cause problemas cardiovasculares ou doenças respiratórias crônicas, ainda que o líquido (juice) contenha substâncias que possam causar em algumas pessoas irritaçāo nas vias respiratórias, geralmente de forma leve e transitória -a nāo ser que se tenha alergia a algum dos seus componentes. Nāo se encontram no vapor produzido pelos cigarros eletrônicos, por exemplo, monóxido de carbono nem os múltiplos compostos tóxicos e alcatrāo (matéria particulada sólida). Veja mais a respeito aqui (em espanhol e inglês). Após o titular, o artigo começa de forma agressiva e categórica:

“O cigarro eletrônico não é um produto inócuo, tem substâncias cancerígenas e aditivos com sabores, com efeitos tóxicos ainda desconhecidos sobre a saúde, informa o Instituto Nacional de Câncer (INCA).”

Concordamos que nāo é um produto inócuo. Realmente, absolutamente a imensa maioria de qualquer dos produtos de consumo humano nāo sāo inofensivos. No entanto, aterrorizar afirmando que existem substâncias cancerígenas, sem buscar demonstrar essa dramática assertiva, é no mínimo irresponsável. E inaceitável a um órgāo de saúde pública, visto que é necessário esclarecer pelo menos um pouco mais esse tema que causa tanto apreensāo. O câncer ainda é um assunto que apesar de exaustivamente estudado possui muitos interrogantes. É um tema complexo onde atuam fatores tāo diversos como os genéticos, os comportamentais e os ambientais. No entanto, há estudos que calculam, tendo como base modelos fisiológicos ajustados por dados médicos, o potencial cancerígeno do tabaco tendo como base as concentrações na fumaça de compostos sabidamente cancerígenos. Dois estudos aplicaram essa mesma metodologia no cigarro eletrônico, em comparaçāo direta com o cigarro de tabaco (veja aqui as referências e resultados). A maioria dos compostos cancerígenos presentes na fumaça do cigarro estāo ausentes no vapor do cigarro eletrônico e, aqueles que puderam se encontrar, existem em concentrações tāo menores que o potencial cancerígeno do vapor inalado no cigarro eletrônico é menor que 1% do encontrado na fumaça do tabaco.

“Por ser uma novidade e existirem inúmeras formas, gerações, marcas e líquidos, os efeitos de longo prazo na saúde decorrente das inúmeras substâncias presentes no vapor dos Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEF), ou cigarros eletrônicos, ainda não são completamente conhecidos. “O consumo dos cigarros eletrônicos não é recomendado. Qualquer produto derivado do tabaco causa dependência e é prejudicial à saúde”, adverte Andrea Reis, da Divisão de Controle do Tabagismo, do INCA.”

A representante do INCA comete vários equívocos nesse parágrafo, mas um deles chama mais atençāo: o que eles imprecisamente chamam de Dispositivo Eletrônico para Fumar, ou seja, o cigarro eletrônico (ou para ser mais preciso, o vape) evidentemente nāo é um produto derivado do tabaco. Ainda, a maioria dos ingredientes da composiçāo dos líquidos para vaporar é exaustivamente conhecida (obviamente nāo mencionamos aqui produtos falsificados ou que circulam pelo mercado ilegal) e há inúmeros estudos concluídos e em andamento sobre os seus efeitos (veja mais sobre a toxicologia química e a desinformaçāo sobre o vapor inalado). Em vários países já sāo corriqueiramente fiscalizados e circulam obedecendo exigências legais, pressupostos normativos e regulatórios, como qualquer produto para consumo, promovendo segurança ao consumidor.

“De acordo com o INCA, a forma como o produto vem sendo divulgado em diferentes países é problemática, pois leva as pessoas a acreditaram que é um produto menos nocivo do que os cigarros convencionais. “As mesmas técnicas de marketing e publicidade usadas no passado com os cigarros tradicionais, passando a imagem de que não há riscos, acabam estimulando o consumo deste produto por crianças e jovens”, alerta Andrea.”

A forma como esse produto vem sendo difundida em diferentes países, em sua absoluta maioria países mais desenvolvidos econômica e socialmente que o nosso é “problemática”, na visāo míope da representante do INCA. Como exemplo, todas as instituições médicas do Reino Unido, públicas ou privadas, incluindo o prestigiado Real Colégio de Médicos do Reino Unido (RCP) sustentam, tendo como base resultados de sólidos estudos científicos, que o cigarro eletrônico é muito menos daninho (um mínimo de 95%) que o cigarro convencional. Ao ponto em que o uso do cigarro eletrônico é recomendado, utilizando-se das ferramentas de marketing e publicidade tradicionais, por dezenas de instituições da área da saúde e, inclusive, pelo governo, sendo parte integrante da política oficial britânica de açāo contra o tabagismo (veja mais aqui). Os governos da Nova Zelândia, do Canadá, da Uniāo Europeia, entre outros, e entidades e pesquisadores da área da saúde (ver, por exemplo, M.O.V.E.) sustentam a mesma opiniāo, com base em um corpo já sólido de evidências.

O artigo segue (anti) didaticamente com estas três perguntas e respostas:

O que é o cigarro eletrônico?

O cigarro eletrônico é um dispositivo eletrônico utilizado para fumar, alimentado por uma bateria. Contém um cartucho que armazena nicotina líquida, água, substâncias aromatizantes e solventes, como glicerina e propilenoglicol.

Cigarro eletrônico é permitido no Brasil?

Não. Como medida de precaução e proteção à saúde de nossa população, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe a comercialização, importação e propaganda de quaisquer Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEF).

Qual é o perigo dos cigarros eletrônicos?

O cigarro eletrônico contém nicotina, que causa dependência. Este é o primeiro perigo. Além disso, o cigarro eletrônico é o termo utilizado para definir uma grande variedade de produtos que divergem em relação a formato, concentrações de líquidos, marcas, etc. Portanto, pressupõe-se que haja também uma variedade em sua toxicidade e nas consequências para a saúde de quem os usa, dificultando as conclusões de estudos e do controle sobre o que é consumido.

Já vimos acima sobre a questāo da nicotina, produto que foi intencionalmente demonizado por décadas. A verdadeira variedade em sua toxicidade é em potencial proveniente sobretudo daqueles produtos que circulam no crescente mercado ilegal, sobretudo em países em desenvolvimento como o nosso, onde nāo há regra nem fiscalizaçāo e controle de integridade e qualidade. O artigo assinado pela Agência Saúde finaliza, por fim, com o seguinte parágrafo:

Mesmo diante da variedade de produtos, já se pode dizer que os cigarros eletrônicos representam dois tipos de riscos: o risco individual, que é o surgimento de doenças relacionadas ao seu uso, a ocorrência de explosões e a intoxicação, principalmente por crianças, pelo contato com seu líquido; e o risco coletivo, que seria o impacto da entrada e consumo destes produtos nas medidas de controle do tabaco de um país.

Por: Agência Saúde
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É intensamente perturbador ver profissionais experientes, com extensa bagagem de estudos e em posições de evidente responsabilidade pública utilizarem o senso comum em seus argumentos e fontes de raciocínio.

Veja aqui, na prática, um video sobre o que é e como funcionam os cigarros eletrônicos. No entanto, podemos explicar de forma rápida, em poucas palavras. Além de geralmente barato, seu funcionamento é simples: a corrente elétrica proveniente de uma bateria (externa ou interna) aquece uma resistência que está em contato com o líquido solvente, o qual é vaporizado quando o consumidor aspira gerando uma pressāo negativa. O aerosol resultante (chamado ‘vapor‘, nāo fumaça porque nāo existe combustāo nesse processo) é inalado pelo consumidor (chamado vaper) em uma açāo que simula a forma de uso de um cigarro convencional, mas reduzindo de maneira drástica os efeitos nocivos da fumaça do tabaco.

Assim como milhares de produtos eletrônicos, os cigarros eletrônicos também usam baterias recarregáveis. Nenhum desses aparelhos está isento de riscos. No entanto, os acidentes em geral sāo pouco frequentes e costumam ter como causa mais o descuido ou o mau uso que propriamente defeitos desses produtos. Muitas vezes esses acidentes nada têm a ver com os próprios equipamentos. Baterias em geral têm requisitos e formas de uso, transporte e armazenamento. Submetidas a condições de uso ou transporte inadequados, podem desprender gases para liberar a pressāo que se acumula dentro delas, o que em alguns casos podem gerar explosões. Esse tipo de acidente tem como causa principal a sobrecarga ou curto circuito (por exemplo, guardar uma bateria solta em uma bolsa faz com ela possa fazer um curto circuito com objetos metálicos que entrem em contato com ela). Quem nunca ouviu falar de explosāo de celulares?

O VAPE (veja neste post porque nāo é preciso e correto denominar cigarro eletrônico) simplesmente mimetiza o ato de fumar. Tem nada a ver com tabaco e quase nada a ver com o cigarro a nāo ser a similaridade do uso (o ato de se levar um objeto à boca para inalar uma substância gasosa). Sāo objetos completamente diferentes. Uma das mais salientes é que o Vape gera um aerosol sem combustāo, o que é química e integralmente diferente da fumaça do cigarro (gerado pela combustāo da folha do tabaco e do papel que a envolve).

Entāo, é completamente absurdo e inconsistente categorizar o Vape como um produto derivado do tabaco. Nem os dispositivos eletrônicos nem os líquidos utilizam o tabaco como matéria prima. Esse produto foi criado originalmente como uma alternativa de risco reduzido para fumantes abandonarem o tabagismo. E sāo exatamente ex-fumantes a maioria absoluta de conumidores.

Inicialmente, a preocupaçāo e a precauçāo das entidades sanitárias sāo sempre legítimas e justificadas. Mas elas precisam com o tempo corroborarem as qualidades que as definem capacitadas enquanto entidades com responsabilidade pública. O argumento baseado no senso comum também pode ser vil porque tem a capacidade de se disfarçar de sensatez. E promove a desinformaçāo. Claro que o melhor seríamos optar por nāo fumar, nem vaporar. Também é melhor nāo beber álcool, nāo ingerir alimentos gordurosos ou cheios de açúcares e fazer exercícios regularmente. No entanto, na vida real poucas pessoas atingem esse ideal utópico de saúde perfeita e absoluta ausência de pequenos vícios ou dependências. Geralmente a perfeiçāo, inalcançável, é inimiga da melhor opçāo, que é realizavável.

Na vida real, todos nós calculamos e assumimos os riscos de consumirmos substâncias que nos dāo prazer ou satisfaçāo. Os resultados mais satisfatórios em saúde pública geralmente acontecem quando conseguimos reduzir os riscos de forma razoável. Seria fantástico que ninguém fumasse, mas nāo é realista supor que todos os tabagistas podem ou querem deixar de fumar. É nesse sentido que o cigarro eletrônico, como um produto de menor risco à saúde que imita o hábito de fumar, se transforma numa ferramenta importante para reduzir o consumo de cigarros e evitar a toxicidade da fumaça do tabaco.

O que buscamos discutir, enquanto associaçāo de usuários de vape (e ex-tabagistas), entre tantos aspectos, é a necessidade urgente de um foco na reduçāo dos danos do tabagismo como alternativa pragmática ao ideal preconizado da abstinência. E que as autoridades ofereçam discursos mais inteligentes, sem simplificações e ideias prontas para uma questāo complexa; que abram o campo do jogo e o joguem com alicerces científicos e menos carregados de seus particulares proselitismos, porque nāo existe um caminho fácil a ser seguido. Apenas caminhos honestos.

 

matéria citada: https://www.folhavitoria.com.br/saude/noticia/12/2018/cigarro-eletronico-causa-dependencia-e-tem-venda-proibida-pela-anvisa
Por Claudio Teixeira e Roberto Sussman – AHLPROVAPE / Pro-Vapeo México A.C.